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Blog de lucabarbabianca
 


Soneto: O canalha

O canalha

 

Por toda a vida praticou o mal,

escarneceu de todos seus iguais;

traiu, mentiu, roubou cada vez mais

e assassinar virou coisa banal.

 

Em nenhuma vez sequer foi cordial

com a mulher, os filhos ou os pais;

não lhe ocorreu fazer o bem jamais

e assim se transformou num ser brutal.

 

Chega o dia em que o vil é um ninguém

e no fim é tanto canalha junto

que não se sabe nem o quem é quem.

 

Agora, finalmente, lhes pergunto

se não acham que o riso lhe cai bem

na boca descarnada de defunto.

 

Luca Barbabianca



Escrito por lucabarbabianca às 09h50
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Sinopse: Poder, essa realidade escorregadia.

[...]

“O poder perpassa (nosso) cotidiano e está presente em todos os meandros e momentos da vida social.

Em seu sentido primeiro, etimológico, denotativo, poder é a capacidade, o recurso, a qualidade de se poder fazer ou produzir algo. Quando eu consigo fazer algo, digo que posso, tenho o poder.

Outra acepção de poder é entendê-lo e tomá-lo como relação (i. é) algo que implica necessariamente um outro; para ser, necessita de outro. Sempre que tomo poder como relação assumo, alguma prática em que, por exemplo, eu estou tirando, expropriando, poder (isto é, capacidades, recursos, como no primeiro sentido) de outros, eu estou colocando meu poder (de novo: capacidades, recursos, qualidades) a serviço de outros. Por isso ficaria mais claro se pudéssemos, ao discutir as relações de poder, empregar, junto com o termo poder, outra palavra, como poder dominação, ou poder serviço.

Se formos examinar o que sucede dentro de nosso mundo social misterioso e fascinante, veremos que ele é uma espécie de turbilhão fantástico de choques e contrachoques, enfrentamentos, tensões, uma espécie de arena onde se alinham, se amam, se defrontam e se digladiam, momento a momento, os seres humanos.

Quando falamos em poder dominação, constata-se uma espécie de roubo, de apropriação de um poder (capacidade, recurso) de outro, em proveito próprio ou de outrem. Assim, dominação econômica é a capacidade de trabalho de uma pessoa que é tirada e é colocada a serviço de outra. O mesmo com a dominação política que pode ocorrer, por exemplo, quando, numa eleição representativa, os eleitores delegam seu poder àqueles que, em seu nome, vão gerir e governar. Se o eleito enganou o eleitorado para receber seu voto, ou extrapola os limites dentro dos quais a representação lhe foi concedida, ele estará exercendo dominação política. Do mesmo modo a dominação religiosa, quando líderes religiosos se intitulam representantes de um poder superior e passam a dominar as consciências das pessoas, quando não as forçam até mesmo a uma expropriação econômica. A dominação religiosa acontece quando as pessoas são mantidas na ignorância, fanatizadas e impossibilitadas de aprofundar sua dimensão transcendente.

Essa relação de dominação, de expropriação de poderes, pode se dar de maneira indireta: primeiro eu caracterizo determinadas pessoas ou grupos, como portadores de tais e tais qualidades, ou crio estereótipos específicos que vão me possibilitar, num segundo passo, uma expropriação econômica, política, religiosa ou de qualquer outro tipo. Exemplo: caracterizo as mulheres como sendo frágeis, mais motivadas por razões afetivas do que executivas a fim de conseguir que, mesmo em nossos dias, passem a receber apenas 70% do que recebem os homens. Outro exemplo: caracterizam-se os negros como festeiros, amantes da música e da dança e com isso sua paga fica, em média, 60% do que se paga aos brancos.

As relações de poder não são sempre e necessariamente negativas. Eu posso colocar minha capacidade, meus recursos, meu poder a serviço de outros. Chamamos esta relação de poder serviço.

As relações que se dão entre os seres ou grupos humanos, se institucionalizam e se tornam relativamente estáveis, assumem certa estrutura. Se essas relações eram, suponhamos, de dominação, elas também se instituem como sendo de dominação. Mas há também aquelas que se instituíram a partir de relações de poder serviço.

Paulo Freire dizia: não se ensina nada a ninguém, deixa-se com a pessoa com quem se entra em contato “uma porção de nós mesmos”. Essa porção são as relações que estabelecemos. É o tipo de relação que estabeleço que liberta, ou escraviza, dependendo de ser essa relação libertadora ou de dominação”.

[...]

Guareschi, Pedrinho; in Psicologia Social Crítica como prática de libertação; 5ª edição, EDIPUCRS, 2012, Porto Alegre. Páginas 90 – 96.



Escrito por lucabarbabianca às 10h09
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A escultura

Era uma virgem nua, cinzelada em bronze esverdeado sobre uma base de pedra sabão. Em pé, amamentava o menino-deus ao seio direito. Vista por trás, desanimadoras nádegas sem relevo, chapadas.
O escultor por certo quis poupar aos curiosos da arte sacra o pecado da luxúria.



Escrito por lucabarbabianca às 12h58
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Manifestações populares.

Bertioga, fim de tarde da quinta-feira, dia 20 de junho de 2013.

Bertioga realiza sua manifestação como tantas que temos visto Brasil afora nestes últimos dias. Minto; aqui foi diferente de todas as outras. Nenhum incidente. Nenhum ato de vandalismo. Nenhum enfrentamento entre manifestantes e polícia.

O povo de Bertioga não está menos indignado com a corrupção na política do que estão os gaúchos, cariocas ou mineiros.

Bertioga está longe – muito longe – de ter serviços públicos de primeiro mundo. Temos graves problemas na saúde, na educação, na segurança, no transporte. Não nos faltam problemas, inclusive de gestão ineficiente das políticas públicas. Como tantos outros brasileiros, de norte a sul do país, também estamos indignados com os desmandos e já não nos sentimos representados pela classe política. Também nós estamos cansados de ver a coisa pública ser tratada como privada.

Esse recado estava no brilho do olhar de todos e de cada um dos que foram para a rua.

Aqui houve algo de diferente.

Bertioga se constituiu em exemplo para o Brasil. Exemplo de urbanidade. Exemplo de civismo.

Bertioga mostrou que é possível reivindicar dentro da lei e da ordem. Civilizadamente. Democraticamente.

Está de parabéns o povo de Bertioga.

Está de parabéns, acima de tudo, a juventude de Bertioga que terá, daqui para frente, a responsabilidade de encontrar novas formas de participação política para continuar a construção de uma Bertioga melhor para todos.

 

Bertioga, começo da manhã da sexta-feira, dia 21 de junho de 2013.

Ouço na Praia FM, como faço toda sexta-feira às sete da manhã, o programa Praia Sustentável com a presença do pessoal do Movimento Voto Consciente.

O amigo Udo Stellfeld é o entrevistado do dia.

Logo no começo do programa fico sabendo, entre surpreso e triste, que a manifestação da tarde e noite de ontem teve sim seus lamentáveis incidentes.

Como em todos os outros eventos deste Brasil, o de nossa cidade não foi imune à presença indesejável de uma minoria de baderneiros partidários da violência. Infelizmente.

Mas, por outro lado, esses episódios pontuais não tiveram maiores conseqüências. Felizmente.

Já podemos arriscar algumas considerações sobre tudo que está ocorrendo nas ruas e, inclusive, tirar umas poucas conclusões.

A primeira coisa a considerar é que movimentos de reivindicação que começam de forma democrática e civilizada podem caminhar no sentido da desordem generalizada e ficarem definitivamente sem foco. Pior: se descambam para a violência e para o vandalismo raivoso, corre-se o risco de ruptura institucional.

Já se sabe para onde esse caminho nos pode levar.

Inocentes úteis serviram de massa de manobra para o golpe de 64 que instalou entre nós a tortura como política de estado sob as botas da ditadura militar.

O que a voz vinda das ruas está expressando é o desejo de mais democracia, de mais transparência no trato com a coisa pública, de mais ética na política.

Queremos mais.

Queremos avançar nas conquistas democráticas e não retroceder ao obscurantismo de um poder discricionário qualquer.

A segunda coisa que estamos aprendendo é que daqui para frente precisaremos de correções de percurso.

Nas democracias representativas – como é o caso brasileiro – o povo é representado por aqueles a quem escolhe pelo voto.

O povo não exerce a democracia diretamente, sua vontade é intermediada por esses representantes eleitos.

E não é o bastante eleger um representante pelo voto.

 A eleição é apenas um momento do exercício democrático. É preciso acompanhar o trabalho desse candidato eleito. Avaliar se sua atuação é conseqüente com suas propostas de campanha. Em resumo, ver se ele faz por merecer o nosso voto.

Mas, além disso, os indivíduos possuem o direito de participar da vida em sociedade e exercer influência sobre as decisões que dizem respeito a todos.

Pressionar o poder pelo atendimento das demandas é perfeitamente legítimo. A aprovação da Lei 9840 – a Lei da Ficha Limpa – jamais teria sido aprovada se não tivesse havido mobilização da sociedade.

O terceiro ponto sobre o qual pretendo dizer algo é do âmbito do município.

Hoje o verdadeiro poder é local. É no lugar onde moramos, na cidade – seja no ambiente urbano ou no rural – que se encontram as nossas demandas por serviços públicos. Pelo Posto de Saúde, pelo Hospital, pela Creche, pela Escola e, também, pela segurança, pela iluminação, pelo transporte.  São demandas tangíveis, objetivas.

Alguém já disse que a educação só é legítima quando se propõe a edificar a cidadania em relação ao indivíduo e a democracia em relação à sociedade.

Para finalizar, duas palavras.

Escrevi ontem e repito hoje: temos agora a responsabilidade de encontrar novas formas de participação política para continuar a construção de uma Bertioga melhor para todos.

Falei principalmente para nossa valorosa juventude que deu seu recado e não pode ficar só nisso.

Acrescento hoje: movimentos reivindicatórios tendem ao rápido esgotamento tão logo seja atendida a demanda que os motivaram.

 As pessoas têm mais o que fazer e logo vão cuidar das suas vidas.

E por mais que os políticos se assustem com o clamor popular, reorganizam-se rapidamente, solidários e corporativistas.

Estamos cansados de ouvir dizer que “a democracia é o pior sistema, exceto todos os demais”, portanto, mãos à obra.

Democracia é participação.

Inúmeras são as formas de participar asseguradas pelo estado democrático de direito. Os cidadãos podem ir às sessões da Câmara para acompanhar os trabalhos, podem compor os Conselhos (Saúde, Educação, Segurança e outros), participar nas discussões do orçamento municipal entrar para associações de bairros. Estudantes podem se organizar em grêmios estudantis e diretórios acadêmicos. Trabalhadores podem se organizar em sindicatos e entidades de classe. Todos podem integrar partidos políticos, ONGs e os mais diversos movimentos como o MVC – Movimento Voto Consciente, Movimento Ficha Limpa e Movimento pela Ética na Política.

E o cerne da participação política no município é a Câmara de Vereadores, a chamada ‘Casa do Povo’. É a sucessora da Ágora, a Praça de Atenas, na velha Grécia, berço da democracia.

Na Casa do Povo as reuniões são públicas e todo e qualquer cidadão pode acompanhar as discussões.

Este é o caminho democrático e há muito por fazer.

 



Escrito por lucabarbabianca às 23h07
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Será o Corinthians a vítima da vez do 'complexo de vira-lata'da midia tupiniquim?

Foi Nelson Rodrigues que com sua verve excepcional cunhou a expressão ‘complexo de vira-lata’.
Isso foi lá pelo começo dos anos sessenta – anos de chumbo – quando o brasileiro comum teve sua cidadania política cassada pela ditadura militar. Nelson descrevia esse brasileiro típico como um “introspectivo cabisbaixo, intimidado e submisso à autoridade de plantão, envergonhado até de ouvir a própria voz”.
Hoje vivemos a plenitude democrática e os brasileiros todos podem andar de cabeça erguida e exercer sua cidadania em paz. Claro que estamos ainda longe – o mundo todo está longe – de viver a sonhada democracia econômica, mas a noção de dignidade permeia nossos corações e não nos autoriza acovardamentos. Convivemos ainda com a miséria, a fome e a exclusão ou a inclusão perversa, mas estamos pavimentando caminhos que nos levarão a um mundo melhor, onde solidariedade e justiça social não sejam apenas palavras desprovidas de significado real.
Ensaio estas linhas porque um episódio recente – para uns uma fatalidade e para outros um crime – fizeram-me pensar que talvez estejamos recriando entre nós esse ‘complexo de vira-lata’.
Estou falando da morte estúpida do garoto boliviano atingido por um sinalizador, durante o jogo San José e Corinthians no estádio de Oruro.
Toda mídia tupiniquim mostrou-se indignada e clamando pela condenação exemplar do “culpado”. É fato que o discurso da demagogia é o que primeiro emerge em situações desse tipo. É um discurso fácil que encontra eco no inconsciente coletivo da massa influenciada pela emoção do momento e lhe desperta a ira justiceira.
Mas, afinal, quem é esse famigerado “culpado”? A torcida corintiana que ainda ontem encantava o mundo com sua vigorosa demonstração de amor pelas cores alvinegras? O clube que tanta paixão é capaz de despertar nessa multidão de torcedores fidelíssimos? Serão talvez as “organizadas”? Ou a “Gaviões da Fiel”? A diretoria? Serão porventura os cartolas?
Nada disso. Antes mesmo de qualquer apuração mais cuidadosa dos fatos elegeu-se um bode expiatório: um torcedor fanático. Notei que o ‘torcedor’ foi, recorrentemente, adjetivado pelo ‘fanático’ em praticamente todos os comentários da imprensa especializada. Esse torcedor fanático – definitivamente o culpado, o criminoso – era apenas outro garoto como aquele que pagou com a vida a aventura de ter ido ao estádio para torcer por seu clube. Criminalizou-se o torcedor; criminalizou-se a torcida. Como se o torcedor e a torcida do clube visitante fossem os únicos e exclusivos responsáveis pela segurança no estádio do clube anfitrião.
Eu, com meus botões, havia me perguntado como é que torcedores teriam passado despercebidos por aeroportos, portando rojões, sinalizadores e sei lá mais o quê, se não se consegue passar nem com um canivetinho de bolso ou uma tesourinha de unhas. Soube, depois, que sinalizadores são permitidos e vendidos livremente no estádio boliviano. Tinha que dar no que deu, era uma ‘fatalidade’ anunciada. Mas não ouvi uma voz sequer se rebelar contra a inépcia e a ineficiência da segurança pública, que permite criminosamente que essas armas sejam comercializadas num estádio destinado a prática esportiva do futebol e não do ‘tiro ao pato’. Não ouvi uma voz sequer se indignar com a prisão de doze torcedores ‘visitantes’ tratados como criminosos antes de qualquer julgamento. Isso, dando-se de barato que um deles fosse o ‘culpado’, significaria que outros onze ‘inocentes’ estavam presos indevidamente pela truculência policial na delegacia de um país estranho.
Deveríamos estar exigindo punição exemplar sim. Para o Estado Boliviano e para sua inepta segurança pública. Para que outras vidas não sejam ceifadas à vista de todos pela incompetência da polícia e das políticas de estado. Deve-se exigir do Estado criminógeno que indenize exemplarmente a família da vítima de sua inação e/ou má gestão.
Assim, de peito aberto e com coragem, afirmando-nos na cidadania e na justiça e nos indignando e denunciando os verdadeiros culpados é que evitaremos voltar a ser contaminados pelo ‘complexo de vira-latas’.
Nota (1):  Escrevi o texto acima, de um só fôlego e não me lembrava de que Nelson publicara sua crônica em que mencionou o “complexo de vira-lata” ainda em 1958 e não no início dos anos sessenta. O assunto era, ainda uma vez, o futebol. E Nelson foi profético: o Brasil iria em seguida sagrar-se campeão do mundo, batendo a Suécia no jogo final por 5 a 2. Depois disso ainda amargamos durante a ditadura militar um longo período de humilhação, de “vira-latas”, até sermos finalmente redimidos pela Constituição de 1988, a chamada Constituição cidadã, que nos assegura viver hoje num estado democrático de direito.

Nota (2): Este texto foi publicado inicialmente em 1º de março p.p. no Recanto das Letras. De lá para cá, nada mudou.



Escrito por lucabarbabianca às 08h09
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Gaivota

O carroção do tempo arrasta os remos

dos barcos esquecidos nas marinas,

onde o sol brilha em bocas clandestinas

lembranças que gozamos e sofremos. 

 

O barco despojado dos extremos

entre casco e areias purpurinas

traz de um resto de rede as malhas finas

que evocam os futuros que perdemos. 

 

No horizonte tecido de vazio,

com os olhos opacos dos enfermos

e o desejo enredado no amavio,

 

vou ser esta contradição em termos:

sobre as estrofes, caudaloso rio,

e a magra gaivota nos céus ermos.



Escrito por lucabarbabianca às 22h50
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Sonho libertário

Eu, só com meus botões, às vezes cismo
nos porquês de haver fome pelo mundo
e, após pensar, julgo que são, no fundo,
contradições do neocapitalismo.

Sem ser este saber o mais profundo,
nos revela a distância de um abismo
entre o ideal e o falso moralismo,
entre aridez e germinar fecundo.

Sem democratizar a economia
não se constrói valor humanitário.
Temos que fazer da cidadania

o alimento do sonho libertário
de um Estado-síndico da maioria
e acima do poder discricionário.

(Inspirado pela leitura de A Mosca Azul, reflexões sobre o poder, de Frei Betto, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2006, págs. 274/275)



Escrito por lucabarbabianca às 11h53
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O Poeta Corcunda

O poeta é o anjo decaído
que leva nas costas,
sob a capa,
um par de asas escondido.

- Olha! lá vai o corcunda!
Os homens gritam
e, pretensiosos,
zombam dele,
e nem desconfiam
que esse poeta aleijado
possa voar...

Não sou corcunda (ainda)
e nunca aprendi o encanto
alado
de poder voar.
(talvez um dia...)
E, no entanto,
eu e minha magra poesia,
somos
leves como flocos de neve,
porque sofremos de anorexia.



Escrito por lucabarbabianca às 14h49
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Agnosticismo

 

Desde que li Russell, na adolescência,

concluí meu curso de agnosticismo

e cultivo o pecado do otimismo

com total e solene independência.

 

Crer em Deus é questão de oportunismo

se o mais das vezes, por conveniência,

finge-se ter razões de consciência

para pular de um ismo a outro ismo.

 

Lembra-me o caçador sem munição

que sempre fora ateu e, num lamento,

invoca a Deus no último momento:

 

- Que tal fazer deste urso um bom cristão?

Cai de joelhos o urso e diz então:

- Agradeço, meu Deus, este alimento.



Escrito por lucabarbabianca às 11h19
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Mensalão x Privataria

Fritada não se faz sem quebrar ovos.

Depois de Lula eleito presidente,

no Brasil vivemos tempos novos,

onde cada poder é independente.

 

Já na era FHC, o antecedente,

só tinha voz e vez a rede globo,

a 'tucanada' nos fazia de bobo;

vendia nossa pátria impunemente.

 

'Se nos convém, vai ter divulgação;

se não interessar, a gente esconde',

já dizia  um ministro de plantão.

 

Vivíamos em crise e no sufoco.

O roubo 'privatado' (foi pra onde?)

faz o mensalão parecer troco.

 



Escrito por lucabarbabianca às 10h37
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O Julgamento da Corrupção

Tanto se falou em mensalão durante este ano que está por terminar que eu também sucumbi à tentação de fazê-lo.

Preciso contar-lhes que quando comecei a escrever, o título era outro – “Mensalão, Mensalões, Mensalinhos e Messalinas” – e começava assim:

“Tenho ouvido e lido tanto besteirol sobre o assunto que resolvi botar também minha colher nesse caldo.

Sabemos todos (ou deveríamos todos saber) que a corrupção não foi inventada pelo PT, nem pela Revista Veja, nem pelo STJ e muito menos pelo Delúbio, o Genoíno ou o Zé Dirceu. Corrupção é uma espécie de pecado original da nossa República que já nasceu com seu DNA corrompido.

A coisa vem de longe...”

E seguia dizendo que num longinquo 15 de novembro, há exatos 123 anos, por conta de alguns boatos engendrados pelo positivista Benjamim Constant, um punhado de militares tinha saído da caserna para fazer manifestações de rua. Um velho e quixotesco marechal de nome Manuel Deodoro, herói da Guerra do Paraguai, foi chamado para conter a agitação e, acenando seu quepe, mandou-os de volta para casa com o grito de “Viva o Imperador!” Depois, quando lhe disseram (o que não era verdade) que o Gaspar Silveira Martins, que já lhe tinha roubado os favores amorosos da bela viúva Adelaide, iria assumir o Conselho de Ministros,  aderiu à conspiração e chefiou o golpe militar que derrubou a Monarquia Constitucional...

E lá ia eu contando a História da República Brasileira. Não a oficial que é a da hipocrisia, mas a real e que não cheira propriamente o cheiro bom dos livros, porque sempre esteve à flor do lodo ou mergulhada nele.

Todo o período chamado de República Velha – desde 1889 até o golpe de 1930 – foi pródigo em escândalos de corrupção e compra de votos. Não foi diferente com Vargas – de 1930 a 1945 – e, também, depois, até que novo golpe militar depôs Jango em 1964. Durante as trevas da ditadura que se seguiu, a corrupção feita política de estado foi instrumento de sustentação da tortura, o máximo de degradação a que o ser humano pode ser submetido. Restabelecido o estado de direito com a consequente eleição de presidentes civis, a corrupção, longe de ser contida, recrudesceu de forma endêmica.

Parece que é da nossa tradição a prática da gorjeta e da propina. Dá-se gorjeta ao garçon para conseguir atendimento diferenciado: uma dose mais generosa, uma conta menor ou artificialmente diminuída; em suma, para levar vantagem.

O empresário pratica caixa dois e dirá que o faz porque é achacado por impostos e precisa sobreviver. O mesmo vale para o profissional liberal e para o homem comum. Juízes vendem sentenças ou, no caso do Lalau, perpetram fraudes faraônicas. Funcionários de carreira que deveriam ser exemplos de moralidade, desviam milhões. Lembram-se de uma tal de Jorgina? As grandes corporações, principalmente em seus negócios com governos, agem da mesma forma: propinam para fraudar licitações e conseguir contratos vantajosos. Os políticos gastam para se eleger, cem vezes ou mais do que aquilo que vão receber de salários ao longo de todo o mandato. Se forem hipócritas o bastante dirão que isso é renúncia cívica, mas se prestarmos atenção nas suas trajetórias públicas, vamos encontrá-los, mais à frente, com patrimônios milionários.

A conquista de apoio parlamentar pelos governos, tanto no âmbito federal como estadual ou municipal, sempre se deu pela barganha fisiológica e pela compra de votos. O preço do voto é variável; pode ser a nomeação de um correligionário, um cargo em comissão, uma secretaria ou um ministério, a concessão de uma emissora de rádio ou um canal de televisão, ou mesmo o velho e prosáico ‘vil metal’, na forma de mensalões e mensalinhos.

Exceção, se houver umas e outras, hão de servir apenas e tão somente para confirmar a regra.

Lá pelas páginas tantas resolvi que era melhor deixar essa conversa para outra ocasião.  Quem sabe um dia me dê na telha publicar o texto todo, com todo o rosário de escândalos havidos ao longo desses 123 anos de existência da provecta dona República. E dar uma canja também à volúvel Messalina dona Mídia, que vive reivindicando para si o direito de expressão que é exclusivo e inalienável de cada cidadão. Os meios de comunicação estão em mãos privadas (empresas/monopólios), já têm de sobra direito de imprensa e, por enquanto, sem qualquer marco regulatório que lhes coíba os excessos cometidos.

Por agora quero só dizer, ainda, umas poucas palavras.

Tendo acompanhado essa balbúrdia cheia de contradições e contraditórios que a grande imprensa apelidou de Mensalão, fiquei pensando no que o Stanislaw diria disso tudo.

É, isso mesmo, o Stanislaw Ponte Preta, o arguto Sérgio Porto, de saudosa maloca, digo, memória. Ele, o autor do FEBEAPÁ, o Festival de Besteira que assola país, uma da raras vozes que ousou mangar dos generais presidentes, ridicularizando-os.

Vendo pela TV – ao vivo e a cores – o espetáculo representado por aqueles distintos senhores de capa preta, discursando, uns para os outros, doutrinas jurídicas velha e novas, num linguajar hermético e absconso, que diria Sérgio Porto?

Que diria da espetacularização midiática do julgamento de uma Ação Penal por doutos juízes? Será que acharia essa cobertura imparcial e informativa? Ou será que a consideraria facciosa e parcial?

Que diria Stanislaw assistindo, por exemplo, a um exaltado duelo verbal acerca da teoria do domínio do fato entre Barbosa e Lewandowiski?

É possível que nos dias que correm dissesse apenas:- Isso mais parece o verdadeiro Samba do Crioulo Doido! Por favor, meretríssimos...



Escrito por lucabarbabianca às 13h17
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Liberdade de expressão x liberdade de imprensa

Soneto

Liberdade de expressão e de imprensa
são expressões autônomas, distintas;
pois se a primeira é, por todas as tintas,
direito de dizer o que se pensa,

a segunda se expressa pela mídia,
dona dos meios de comunicação;
redes de rádios, jornais, televisão,
e nos prende nas tramas dessa insídia.

Imprensa é empresa, é instituição
e um marco que a regule tem que haver.
Esta é a pergunta que quero fazer:

- A quem interessa a confusão
entre os termos imprensa e expressão?
- Ouso dizer que aos donos do poder.

 



Escrito por lucabarbabianca às 17h35
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A lágrima e o riso

Seca a lágrima e ri, oh! carpideira,
mesmo se, das memórias de recorte
colecionadas pela vida inteira,
já não mais existir quem nos conforte.

Nós seremos purgados da sujeira
do que sobra na funda dor do corte,
que nos põe do outro lado da fronteira
de onde não há mais qualquer transporte.

E sem querer saber nem dar reporte
dessa representação derradeira
da vaidade cremada na fogueira,

se tudo correr bem e tiver sorte,
eu, se puder, depois da minha morte
serei riso na boca da caveira.
 



 


   



 

   

 


 
  


  

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 !

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Escrito por lucabarbabianca às 00h02
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Capa de Poeira

Na busca da alavanca de Arquimedes

rumos são remos dos pertencimentos

que antecipam seus próprios movimentos

refletidos no vão vazio das redes.

 

E os barcos desmaiados, sonolentos,

em cujas mudas bocas rezam sedes,

como as sombras inscritas nas paredes

afogam sensações de abafamentos.

 

Brotam as madrepérolas de brilho

na imobilidade desse ar sem ventos.

Eu, pelo velho caminho inda trilho

 

essa capa de poeira dos lamentos

de um cansaço andarilho e maltrapilho

que me coze e remenda os ferimentos.



Escrito por lucabarbabianca às 08h17
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Último voo

 

Ainda busco as paisagens onde possa

descerrar as cortinas do horizonte,

ser traçado de um rio sob uma ponte

e ouvir ranger as rodas da carroça

 

desse tempo que larga pelos cantos

os retalhos, agulhas e novelos

com que tece em meu olhar os teus cabelos

e nos benze de todos os quebrantos.

 

Partiremos sem qualquer bagagem;

cada um de nós já limpou sua gaveta.

Trago na mão os bilhetes de viagem.

 

Pega. Bebe. É remédio para enjoo.

Finalmente sei que fui a borboleta

espetada no alfinete em pleno voo.



Escrito por lucabarbabianca às 18h02
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